Prática clínica
Protocolo de Petroski: como medir as 4 dobras e calcular
Aprenda o protocolo de Petroski: quais 4 dobras medir em homens e mulheres, a equação de densidade, a conversão por Siri e um exemplo de cálculo completo.
Neste artigo
Você aprendeu Pollock na faculdade, usa Pollock no consultório e nunca parou pra pensar que as equações de Jackson e Pollock foram desenvolvidas com adultos norte-americanos. Aí uma colega comenta que usa Petroski porque foi feito com brasileiros, e bate a dúvida: vale trocar?
O protocolo de Petroski é uma das poucas equações de dobras cutâneas desenvolvidas no Brasil, e por isso aparece tanto em concurso, residência e avaliação de paciente adulto. O problema é que a tese original é difícil de achar, e as fórmulas circulam com erro de digitação.
Aqui você leva quais dobras medir, a equação completa pra homens e mulheres, um exemplo de cálculo do começo ao fim e os cuidados na hora de medir.
O que é o protocolo de Petroski?
É um conjunto de equações pra estimar a densidade corporal a partir de dobras cutâneas, desenvolvido por Edio Luiz Petroski na tese de doutorado defendida em 1995 na Universidade Federal de Santa Maria. As equações foram feitas com adultos brasileiros, com versões separadas por sexo: a masculina com homens de 18 a 66 anos e a feminina com mulheres de 18 a 51 anos.
Como Pollock, Petroski não dá o percentual de gordura direto. Ele estima a densidade corporal, e uma segunda equação, geralmente a de Siri, converte a densidade em percentual de gordura.
Quais dobras o protocolo de Petroski usa?
São quatro dobras, diferentes pra cada sexo:
| Sexo | Dobras |
|---|---|
| Homens | Subescapular, tríceps, suprailíaca e panturrilha medial |
| Mulheres | Axilar média, suprailíaca, coxa e panturrilha medial |
Repare que a panturrilha medial entra nos dois casos. É uma dobra que muita gente deixa de medir na rotina, então confira se ela está na sua ficha de avaliação antes de escolher o protocolo.
Qual é a equação de Petroski?
Chamando de S a soma das quatro dobras em milímetros, I a idade em anos, P o peso em quilos e A a altura em centímetros:
Homens
Densidade = 1,10726863 − 0,00081201 × S + 0,00000212 × S² − 0,00041761 × I
Mulheres
Densidade = 1,02902361 − 0,00067159 × S + 0,00000242 × S² − 0,00026073 × I − 0,00056009 × P + 0,00054649 × A
A equação feminina usa também peso e altura, o que não acontece nas de Pollock. Esquecer esses dois termos é o erro mais comum de quem monta a conta numa planilha.
Atenção: circulam duas versões da equação feminina
Se você comparar livros, apostilas e calculadoras, vai encontrar a equação feminina com dois conjuntos de coeficientes. A versão acima é a usada em artigo revisado por pares na Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano. A outra começa com 1,03465850 e tem coeficientes um pouco diferentes.
A diferença não é pequena: na paciente do exemplo abaixo, a segunda versão dá cerca de 1,5 ponto percentual de gordura a menos. Por isso, escolha uma versão, registre qual é no prontuário e use sempre a mesma nas reavaliações.
Da densidade ao percentual de gordura
Com a densidade em mãos, aplique a equação de Siri:
% de gordura = (495 ÷ densidade) − 450
Algumas avaliações usam a equação de Brozek, que dá um valor um pouco diferente. O que importa é usar sempre a mesma nas reavaliações do mesmo paciente.
Como fica o cálculo num exemplo prático?
Os valores abaixo são hipotéticos, só pra mostrar a mecânica.
Homem, 35 anos: subescapular 15 mm, tríceps 12 mm, suprailíaca 18 mm e panturrilha medial 10 mm.
- Soma das dobras: 15 + 12 + 18 + 10 = 55 mm.
- Densidade: 1,10726863 − 0,00081201 × 55 + 0,00000212 × 3.025 − 0,00041761 × 35 = 1,0544.
- Percentual de gordura por Siri: 495 ÷ 1,0544 − 450 = 19,5%.
Mulher, 30 anos, 65 kg, 164 cm: axilar média 12 mm, suprailíaca 20 mm, coxa 25 mm e panturrilha medial 15 mm.
- Soma das dobras: 12 + 20 + 25 + 15 = 72 mm.
- Densidade: 1,02902361 − 0,00067159 × 72 + 0,00000242 × 5.184 − 0,00026073 × 30 − 0,00056009 × 65 + 0,00054649 × 164 = 1,0386.
- Percentual de gordura por Siri: 495 ÷ 1,0386 − 450 = 26,6%.
Com o percentual, a massa gorda é o peso vezes o percentual, e a massa magra é o que sobra. No exemplo da paciente: 65 × 0,266 = 17,3 kg de gordura e 47,7 kg de massa magra.
Como medir as dobras do protocolo de Petroski?
A técnica é a mesma de qualquer protocolo de dobras. O que muda é só a escolha dos pontos.
Checklist da medida
- Lado: sempre o direito do corpo, com o paciente em pé e relaxado.
- Marcação: marque os pontos com lápis dermográfico antes de começar.
- Pinçada: destaque a dobra com o polegar e o indicador, cerca de 1 cm acima do ponto, separando a gordura do músculo.
- Leitura: encoste o adipômetro no ponto, perpendicular à dobra, e leia depois de cerca de dois segundos, sem soltar a pinçada.
- Repetição: meça cada ponto pelo menos duas vezes, em rodízio entre os pontos, e use a média. Se as duas medidas diferirem mais de 1 a 2 mm, faça uma terceira.
Os pontos
- Subescapular: logo abaixo do ângulo inferior da escápula, dobra oblíqua acompanhando as costelas.
- Tríceps: face posterior do braço, no ponto médio entre o acrômio e o olécrano, dobra vertical.
- Suprailíaca: logo acima da crista ilíaca, dobra oblíqua.
- Axilar média: na linha axilar média, na altura do apêndice xifoide.
- Coxa: face anterior, no ponto médio entre a prega inguinal e a borda superior da patela, dobra vertical.
- Panturrilha medial: face medial da perna, na altura da maior circunferência, dobra vertical, com o pé apoiado e o joelho flexionado.
Pequenas variações na localização mudam o resultado, então siga sempre a mesma padronização e anote no prontuário qual você usou.
Quando usar Petroski em vez de Pollock?
Use Petroski quando o paciente for adulto brasileiro dentro da faixa de idade do estudo (até 66 anos em homens e 51 em mulheres) e você tiver como medir a panturrilha medial com segurança. É uma boa escolha quando você quer uma equação desenvolvida numa população mais parecida com a do seu consultório.
Prefira manter o protocolo que já vem usando quando o paciente tem histórico de avaliações em outro protocolo. Trocar de equação no meio do acompanhamento faz o percentual de gordura "mudar" sem que o corpo do paciente tenha mudado.
Se quiser comparar Petroski com Pollock e os outros protocolos usando as mesmas medidas, a calculadora de dobras cutâneas faz a conta de todos lado a lado, com Siri ou Brozek. Pra entender a escolha entre as versões de Pollock, leia Pollock 3 ou 7 dobras: qual protocolo usar.
Resumo rápido
- O protocolo de Petroski foi desenvolvido com adultos brasileiros (homens de 18 a 66 anos, mulheres de 18 a 51), numa tese de 1995.
- Homens: subescapular, tríceps, suprailíaca e panturrilha medial.
- Mulheres: axilar média, suprailíaca, coxa e panturrilha medial, e a equação usa peso e altura. Confira qual das duas versões que circulam você usa.
- A equação dá a densidade; o percentual de gordura vem da equação de Siri (ou Brozek).
- Meça sempre do mesmo lado, com a mesma padronização, e não troque de protocolo no meio do acompanhamento.
Perguntas frequentes
O protocolo de Petroski é melhor que o de Pollock?
Não existe um melhor em geral. Petroski foi desenvolvido em adultos brasileiros, o que pode aproximar mais a estimativa da realidade do seu paciente, e Pollock é mais usado e tem mais estudos comparativos. O mais importante é escolher um e manter nas reavaliações.
Posso usar Petroski em adolescentes ou idosos?
A equação masculina foi desenvolvida com homens de 18 a 66 anos e a feminina com mulheres de 18 a 51. Fora dessa faixa, prefira um protocolo validado pra idade do paciente, como Slaughter pra crianças e adolescentes.
Por que a equação feminina usa peso e altura?
Porque foi o modelo que melhor explicou a densidade corporal das mulheres da amostra do estudo. Na prática, significa que você precisa pesar e medir a paciente no mesmo dia da avaliação das dobras.
Qual adipômetro usar?
Use um adipômetro com pressão constante e escala em milímetros, calibrado. O ideal é avaliar o mesmo paciente sempre com o mesmo aparelho, porque modelos diferentes podem dar leituras diferentes.
O percentual de gordura de uma avaliação isolada diz pouco: o que ajuda é ver a evolução a cada retorno. O Nootrix, que está em pré-lançamento, calcula os protocolos de dobras na avaliação do paciente e monta o gráfico de evolução no prontuário. Se quiser testar e garantir o preço de fundador, entre na lista de espera.
Referências
- PETROSKI, E. L. Desenvolvimento e validação de equações generalizadas para a estimativa da densidade corporal em adultos. Tese (Doutorado em Ciência do Movimento Humano) - Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 1995.
- FILARDO, R. D.; PIRES NETO, C. S. Indicadores antropométricos e da composição corporal de homens e mulheres entre 20 e 39,9 anos de idade. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, v. 3, n. 1, p. 55-62, 2001. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/rbcdh/article/view/3991
- SIRI, W. E. Body composition from fluid spaces and density: analysis of methods. In: BROZEK, J.; HENSCHEL, A. (ed.). Techniques for measuring body composition. Washington: National Academy of Sciences, 1961. p. 223-244.
- BROZEK, J. et al. Densitometric analysis of body composition: revision of some quantitative assumptions. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 110, p. 113-140, 1963. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14062375/
- LOHMAN, T. G.; ROCHE, A. F.; MARTORELL, R. Anthropometric standardization reference manual. Champaign: Human Kinetics, 1988.
- SLAUGHTER, M. H. et al. Skinfold equations for estimation of body fatness in children and youth. Human Biology, v. 60, n. 5, p. 709-723, 1988. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3224965/